A inserção do Brasil nas cadeias globais de valor permanece como um dos maiores desafios estruturais para o desenvolvimento econômico do país, esbarrando historicamente em um conjunto de disfunções burocráticas, logísticas e fiscais conhecido como custo Brasil.
Esse fenômeno, longe de ser apenas um conceito abstrato debatido em fóruns empresariais, traduz-se em um encargo financeiro real e mensurável que incide diretamente sobre o preço final das mercadorias produzidas em solo nacional. Quando as indústrias brasileiras tentam competir em mercados internacionais, elas não enfrentam os concorrentes estrangeiros em igualdade de condições, pois carregam em suas planilhas de custos o peso de uma infraestrutura deficitária e de um ambiente regulatório hostil, fatores que asfixiam a inovação e neutralizam a eficiência produtiva conquistada dentro das fábricas.
O primeiro e mais evidente vetor desse estrangulamento manifesta-se nos gargalos logísticos que encarecem o transporte e o escoamento da produção até os principais portos e aeroportos do país. A dependência excessiva do modal rodoviário, combinada com a falta de manutenção de estradas e a lentidão nos investimentos em ferrovias e hidrovias, cria uma barreira física que eleva os custos de frete a patamares proibitivos.
Além disso, a burocracia aduaneira e a infraestrutura portuária muitas vezes operam no limite de sua capacidade, gerando atrasos crônicos no carregamento de navios que resultam em multas contratuais e na perda de janelas comerciais preciosas. Esse atraso logístico funciona como uma tarifa alfandegária informal e invisível, encarecendo os produtos brasileiros antes mesmo que eles cruzem as fronteiras nacionais.
Outro pilar desestruturante do custo Brasil reside na extrema complexidade e no peso do sistema tributário, que historicamente penalizou a produção de bens de maior valor agregado. Embora existam mecanismos constitucionais destinados a desonerar as exportações, o emaranhado de regras acessórias e a cumulatividade parcial de impostos indiretos geram um resíduo tributário oculto que as empresas não conseguem recuperar ao longo da cadeia produtiva.
O acúmulo crônico de créditos fiscais sem liquidez imediata asfixia o fluxo de caixa das indústrias, forçando-as a recorrer a linhas de financiamento bancário com taxas de juros elevadas para manter suas operações diárias. Essa distorção financeira retira o fôlego das corporações nacionais, impedindo que ofereçam preços competitivos frente a nações que operam sob regimes de imposto sobre o valor agregado mais neutros e transparentes.
A insegurança jurídica e a volatilidade regulatória completam o cenário de desvantagem competitiva, elevando o prêmio de risco exigido pelos investidores internacionais para financiar projetos de longo prazo no país. A constante alteração de interpretações fiscais pelas autoridades arrecadatórias e o excesso de contencioso administrativo geram um ambiente de imprevisibilidade que afasta o capital estrangeiro voltado à inovação tecnológica e ao ganho de produtividade.
Sem um arcabouço normativo estável, as empresas brasileiras tendem a focar na sobrevivência burocrática de curto prazo em vez de planejar estratégias agressivas de expansão de mercado no exterior, consolidando uma pauta exportadora excessivamente dependente de commodities agrícolas e minerais sem processamento.
A superação desse cenário de isolamento comercial exige que o enfrentamento do custo Brasil deixe de ser tratado como uma pauta setorial isolada e passe a figurar como o eixo central de uma política de Estado voltada para a produtividade nacional.
A simplificação radical das obrigações burocráticas, a aceleração das concessões de infraestrutura ao setor privado e a garantia de devolução rápida de créditos tributários aos exportadores são medidas urgentes para devolver a dignidade competitiva às fábricas do país. Somente por meio do desmonte planejado e sistemático dessas barreiras internas será possível permitir que o talento, a sustentabilidade e a capacidade de inovação do empresariado brasileiro brilhem com total intensidade no competitivo mercado global.



